I
Pergunta-se como teria ele acabado assim. Um gajo ainda novo, que podia muito bem estar a trabalhar àquela hora, namorar, ter uma família, ter filhos. Sentia a sua proximidade, respirava o mesmo ar, já seco, a apodrecer embora sem cheiro, uma inversão de sentidos, o cheiro via-se antes sequer de ser sentido ou antes sequer de porventura poder existir, apodrecendo vivo por dentro, é essa a melhor expressão.
Não estava a ser uma manhã comum naquele autocarro apinhado de gente, e dava-se um confronto matinal com a maior verdade de todas, a mais absoluta, a única verdade: a verdade de que todos caminhamos para o mesmo fim, o mesmo estado de podridão.
Perguntou-se mais uma vez como teria ele chegado àquele estado? Seria SIDA? Teria sido da droga? Muito provavelmente da droga. Um agarrado?! O estado das mãos e a condição da face, a qual ele escondia atrás do cachecol. Tudo indicava qual havia sido a sua sentença, lembrando que quando a cabeça não tem juízo o corpo de facto paga.
Os pensamentos tinham ficado suspensos no ar, como uma nuvem de fumo de cigarro já seco, ressequido, num ar abafado que não deixava o fumo circular para longe. Quando de repente sentiu a sua voz logo ali atrás, mas delicada e educada, provocando um repentino sobressalto de alma, um arrepio na espinha. Não podemos escolher o que queremos ver, apenas podemos escolher a forma como queremos ver aquilo que vimos. Estando vivos os nossos sentidos absorverão sempre, de alguma forma, todas estas experiências que se nos atravessam.
Nunca mais o voltaria a ver, mas a sua voz foi uma surpresa doce, educada, sem revolta. Mas se não fosse SIDA, ou se não fosse da droga? E se fosse simplesmente um adulto fustigado pela varicela…E se não fosse um coitadinho ou um desgraçado qualquer? E se tivesse uma família e estivesse em tratamento? E se aqueles jeans gastos e aquela sweat não significassem nada? Haveria alguma forma de conseguir treinar o seu corpo e a sua mente de modo a não tirar conclusões precipitadas, ainda que as mesmas fossem somente suposições? Evitar pensamentos intuitivos e especulativos baseados em análises de pormenores desprovidas de qualquer verificação ou validação? No seu caso particular, sendo a pessoa que é, estando envolta na situação, isso seria muito difícil, para não dizer mesmo impossível de alcançar, até àquela manhã…