Gente

Gente que se cruza
Gente que não se cala
Palavra para quem é surdo
Gesto para quem é cego

Abraço o desconhecido
Beijo o aborrecido
Cumprimento o cínico
Sorrio a mim mesmo ao espelho

Nesta festa discreta
Neste circo estabelecido
Monto a minha guarida
Levo uma vida cortejante

Se me vires não olhes
Se me olhares não vejas
Se me tocares não teimes
Se me tiveres não desprezes

Desejo

Hoje não acordarei, nem despertarei o desejo
Vou tentar tudo esquecer
Atirarei ao vento tudo o que me disseste
No meio das tuas frágeis palavras
Vejo agora uma atitude bem diferente

Não vês o meu pavor
Não sabes os meus desejos
Não provaste o meu sabor
Nada sabes de afectos…

Já não quero de ti saber
Se voltares com teus cortejos
Hoje quero dormir só
Morrer nua de desejo

Deserto

Deserto de amor
No meio de estridente ruído
Vozes carentes e lentas
Esfumaçam p'lo ar perdidas

A voz de quem não sabe falar
A fala de quem não sabe o que diz
O silêncio que vem do mar
A maresia no corpo fransido

O cheiro do vinho enjoa
Quem respira um ar poluído
A dança do baile corrido
E suores na face caindo

Paixão

Paixão é angústia de não te consumir
É a lágrima lambida e sentida
Um dia terá um fim mais trágico que a vida

No dia em que a paixão me domar
Um novo universo sereno surgindo
Mais um passo fundo no árido vazio

Rimas, danças e canções
Na poesia da minha rotina
Um dia o sol rasgará a fachada escondida

Indiferença

Essa tua indiferença
Perante minha face ligeira
Será a verdade?

Essa tua delinquência
Ao matares o amor
Com palavras sem valor

Vais fintando o destino
Mas terminas o teu dia
Agarrado à falsidade

Se queres saber mais que o coração
Se consegues rir do luto da saudade
Não mereces o amor, não mereces ser amado

Dádiva

Matas o amor do teu mais fiel seguidor
Desejas o sabor de ser um mal amado
Ironia da vida, há quem chame destino
A este imenso e continuo dissabor

Se me dou, não te dás
Se te quero, não me queres
Quando me quiseres…
Quando te quiser…

A vida dá, tira e leva
É a velha soberana
Mãe dos seus seguidores

Ao Mar

Dás-te sem medo, sem limite
P’la noite dentro e p’lo jardim
Na alvorada sorris e cantas

Mas regressas ao teu pranto
Vislumbrando o céu cinzento
Rasgos de sol pelas brechas do teu corpo

As abertas do amor
Que só mais parecem dor
Destroços lançados ao mar

Na areia dunas de amargura
Pela água flutua a saudade
Pela praia avanças mudo, calado