Arquivo morto

 Onde guardas tu? Todas as tuas palavras...

Aquelas que ninguém irá conhecer.

Terás em ti arquivo com espaço suficiente,

Para tudo o que ficou por dizer?




Como uma vela ao vento

Como uma tocha  na escuridão 

Como uma Lua brilhante 

Dedilhando delicadamente em veludo negro

Entoando refinadamente o seu refrão 

Único e irrepetível






Fuga

Fugir pode ser uma saída contudo não é a solução....Fugir pode ser muitas vezes a única coisa possível a fazer no momento ou a coisa mais correta de se fazer...Contudo, sublinho, não é a solução...Quando fugimos duma situação é por medo, dor, insegurança, desilusão, incapacidade de lidar...Ainda sim, re-sublinho, não é a solução...Pode ser uma "solução" temporária...mas. No entanto, nem tudo tem que ter uma "solução" se usarmos a verdadeira essência desta palavra...Talvez  tenhamos que passar pelos momentos mais desagradáveis, sinistros ou até terríveis para criarmos em nós a capacidade de nos revermos, de nos desenvolvermos, de nos apurarmos, de nos desenrascarmos...Talvez tenhamos que passar pela experiência do abandono (abandonar ou sermos abandonados) para perceber em que tipo de filme estamos a participar ... ou qual a personagem que temos neste livro que é a nossa vida...No fundo o que pretendo dizer é somente que a fuga enquanto alienação a meu ver não é solução...O ato de fuga tem os seus motivos, e válidos sobretudo para quem o pratica...Mas a fuga enquanto alienação sem a busca de um entendimento mais profundo e longitudinal (que tem com certeza também os seus motivos -embora mais preocupantes ou nefastos para os intervenientes, veja-se o exemplo do motivo pós-traumático) leva-me a continuar a acreditar que não é a solução. Mas afinal do que andamos a fugir? Será que todos fugimos de algo? Há pessoas que não precisam ou não fogem de nada? E se fugimos fazê-mo-lo em consciência ou sem sequer pensar nisso?

Diz-me

 Diz-me de que és feito

Diz-me qual a matéria 

Diz-me qual o segredo do inatingível 

Diz-me qual a voz que ecoa do fundo da tua alma

Diz-me que voz tens para eu ouvir

Diz-me o que te sustém 

Diz-me ao que deve fazer soar 


As palavras terão algum intento?

As palavras esss meros sons, articulações, encadeamentos, símbolos dos nadas e dos tudos, símbolos do quê?

Diz-me...tens mesmo alguma palavra a dizer?

As mulheres aguentam tudo

 ...Até os homens elas aguentam.

Parte I - La jeunésse

Cassandra vivia com a ansiedade do amanhã nunca chegar...Ideias, acções, confusões e o que mais houvesse...Sem parar para respirar com a mente sempre a comandar e um corpo leve como uma pena quase sem que o mesmo praticamente existisse ou pesasse ao ar. Cassandra ansiava o futuro, vivia apenas no futuro: projecções, visões, previsões. Deitava-se e acordava já a conjecturar. 

Dava de si, dava o que tinha, colocava a vida "a prego" sempre com a esperança de que o amanhã é que Seria...Amanhã seria certamente o Dia! E um dia bonito e perfeito. Porque Cassandra tudo dava, incansavelmente, à vida! 

Artist

 Ele é uma estrela cadente

Daquelas que apenas temos a sorte de avistar

Quando olhamos despretensiosamente o céu 

Numa noite quente de verão


Ele é um astro incandescente

Cuja luz ofuscante está à vista de todos 

Contudo ele apenas é visível para quem quer


Como o Sol, 

Como a Lua, 

Como Vénus, 

Como um qualquer corpo celestial em movimento

Ele é e será sempre um artista que deixa o seu rasto...

Time

Que parem as horas, 
que prendam os minutos, 
que agarrem os segundos.
Que o tempo pare 
E distorça os corpos

Nesta dimensão difusa e distorcida
Que os fusos das horas 
Se unam em uníssono

Ser abonado e "abnegado"

Ser abonado e "abnegado",
que crias, que amas, que sofres
que desbravas a vida como um cavaleiro
como um marinheiro, um poeta, um amante,
um piloto, aviador, um estivador,
rasgando as nuvens do céu em dias de nebulosidade
trazendo a redenção a quem ainda pulsa o coração
faz perdurar o efeito dessa tua poção de salvação

Pequena criança

Com uma face já cansada
De esperar, de se perder, a procurar
Com os seus estilhaços como um fogo de artifício,
Insólito, suspenso,
Pelo céu escuro e estrelado
Conseguirás nesta noite descansar
Ou apenas sonharás com algo estranho, desconhecido...

Sinestesia


Eu quero mais, sempre mais

Mesmo que esse mais seja um nada

Um nada a mais, sempre a  mais que o nada…



Sina, karma, fado, sinal

Presságio, pressentimento

Esse sentido de todo o sentimento



Amor, frustração, vazio

Inquietude, desejo, indiferença

Facas espetando

Lume queimando



Doce sabor do afeto

Timbre terno e embalado

Fácil de aperto

Frágil de trato

Emotional desert

Gélido, árido, pesado e petrificante
Este ar suspenso
Que nem o vento leva
Nada florescerá nestas cinzas de tormentos
Nada sobreviverá neste chão de cacos cutilantes

Aritmética

Vejo-te mas não existes
Sinto-te mas não te encontro
Desejo-te mas não te procuro
Não és todo
Não és parte
 Não és soma ou subtração
Não és divisão, multiplicação...
És o tudo mais
Mais que a soma das partes,
Dos estilhaços espalhados...
Nada mais do que eu...e tu,
Contigo mesmo,
Mas seriamos suficientes?
Ou terminaria em quociente?

Desfecho

Nossos caminhos circulam
Em rota de colisão
Nossos caminhos se cruzam
Somente em contramão
Tudo o que não fomos
E apenas um rasto do que fomos
Pelo imaginário das possibilidades
Conduziu já à inevitabilidade deste desfecho

Esta simplicidade simplória

O ar poluído , seco e sufocante
As mentes suspensas neste jardim sem flores
A minha mente definha a cada esquina,
A língua cada vez menos usada,
A cada página virada de uma qualquer publicação trivial e fugaz
Que se passeia pelas mãos dos simples transitantes

Descabimento

Descabido seria ousar escrever o mundo sem nele passar,
Sem nele mergulhar, sem nele rebolar,
sem nele enlamassar a alma...
Como se atreveria?
Meramente sonhar?
Imaginar?

I

Pergunta-se como teria ele acabado assim. Um gajo ainda novo, que podia muito bem estar a trabalhar àquela hora, namorar, ter uma família, ter filhos. Sentia a sua proximidade, respirava o mesmo ar, já seco, a apodrecer embora sem cheiro, uma inversão de sentidos, o cheiro via-se antes sequer de ser sentido ou antes sequer de porventura poder existir, apodrecendo vivo por dentro, é essa a melhor expressão. Não estava a ser uma manhã comum naquele autocarro apinhado de gente, e dava-se um confronto matinal com a maior verdade de todas, a mais absoluta, a única verdade: a verdade de que todos caminhamos para o mesmo fim, o mesmo estado de podridão. Perguntou-se mais uma vez como teria ele chegado àquele estado? Seria SIDA? Teria sido da droga? Muito provavelmente da droga. Um agarrado?! O estado das mãos e a condição da face, a qual ele escondia atrás do cachecol. Tudo indicava qual havia sido a sua sentença, lembrando que quando a cabeça não tem juízo o corpo de facto paga. Os pensamentos tinham ficado suspensos no ar, como uma nuvem de fumo de cigarro já seco, ressequido, num ar abafado que não deixava o fumo circular para longe. Quando de repente sentiu a sua voz logo ali atrás, mas delicada e educada, provocando um repentino sobressalto de alma, um arrepio na espinha. Não podemos escolher o que queremos ver, apenas podemos escolher a forma como queremos ver aquilo que vimos. Estando vivos os nossos sentidos absorverão sempre, de alguma forma, todas estas experiências que se nos atravessam. Nunca mais o voltaria a ver, mas a sua voz foi uma surpresa doce, educada, sem revolta. Mas se não fosse SIDA, ou se não fosse da droga? E se fosse simplesmente um adulto fustigado pela varicela…E se não fosse um coitadinho ou um desgraçado qualquer? E se tivesse uma família e estivesse em tratamento? E se aqueles jeans gastos e aquela sweat não significassem nada? Haveria alguma forma de conseguir treinar o seu corpo e a sua mente de modo a não tirar conclusões precipitadas, ainda que as mesmas fossem somente suposições? Evitar pensamentos intuitivos e especulativos baseados em análises de pormenores desprovidas de qualquer verificação ou validação? No seu caso particular, sendo a pessoa que é, estando envolta na situação, isso seria muito difícil, para não dizer mesmo impossível de alcançar, até àquela manhã…

Mulher e homem

No mundo moderno a mulher continua a ser a mulher A mulher simplesmente é substituída por outra mulher naquilo que à mulher sempre competiu Novas formas de casais surgem (homem com homem, mulher com mulher) Muitas vezes imitando e replicando esta falácia, este embuste… E naquilo que a mulher não conseguir substituir o homem é porque o Homem não fez o uso devido da tecnologia e métodos ao seu dispor ….

Metamorfose

Quem não tem o poder da reinventação
 Pouco ou nada aprenderá
 Com os reversos da vida
 Ou a malvadez do nosso ser mundano

Vazio

Ser poeta é cair neste vazio de mente
Mas depressa logo se auto despertar
Com o cantar do passáro
O barulho do mar
 À luz do luar...

Último

Quando tens por única companhia
O fumo desse cigarro,
O miar desse gato,
O latido do cão ou as gotas dum copo,
Sabes bem, dentro de ti
Que é hora de partir
Quando o espaço já é pequeno
E as palavras são meros pássaros
Que entoam na tua esfera
Sabes bem quem estará
À tua espera…ninguém!

Esquecimento

Quando o sangue aquece E as mãos gélidas ganham cor Tu pedes que eu esqueça Eu peço p’ra te esquecer Ambos pedimos O já esquecido

Besta Quadrada

Porta-te bem e quanto muito vais ver que ganhas o prémio do próximo a ser fodido Faz bem, fá-lo bem, sê correto, acredita na justiça… E vais ver que vences o reconhecimento Da besta quadrada ou do tolinho…

Vida

É triste esta vida devida Quando vivida sem a devida fragilidade Pois a vida é um salto difuso e derrapante No vazio do mundo da infinidade

Inqualificável

Há coisas não qualificáveis
No mundo dos perpéctuos inqualificáveis qualificados
Há coisas que não sentes e apenas tentas conhecer
Há coisas que sabes e tentas não sentir
Há coisas que sentes
Quando mentes, finges
Para quem tu nunca foste.

Queimando

Queimando tempo
Queimando luas
Gastando chão

Eu me recuso
A seguir guias
Do coração…

Talvez um dia
Eu te procure
Na escuridão…

Na tua luz…
No teu sem jeito…
O meu refrão…

Peso

No fim sou eu quem chora
E no presente só um sorri
Algures nas estrelas
A chave do meu mistério
Tão simples de afecto
Tão fácil se liberto
E o peso que carrego por ti

Goodbye

Arisca fantasia
Arrisca mais um dia
Se cair não faz ferida
Mas não te deixo cair

Neste pequeno suspiro
No leve passo
Deixa o teu odor
No livro dos meus sabores

Pára e olha para trás
Caminha mas volta
Pisa e sorri-me
Abraça-me e despede-te

Arrependimento

Despe essa roupa
O teu colete de forças
mostra-te como és
sem pudores ou pavores
eu sei que tu és capaz
de ser como todos são
e também sei que não mudarás

vira a casaca
esse teu lado mau
apagas as luzes
acende a luz

a plasticidade do teu ser
os camaleónicos sentimentos
transvertendo argumentos
o teu silêncio devorador

por que razão ainda invisto
em pensar-te desmedido
sem uma saída
apesar dos caminhos livres
no fio condutor desta armadilha


já ninguém sabe o que é o amor
quando a paixão cega
e o desejo prende e enlaça o corpo
O banho da consicência
faz escorrer pela espinha a culpa
por não haver arrependimento

O que és e o que não és....

Eu sou as pessoas que conheço, eu sou aquilo que aguento, aquilo que faço, aquilo que ouço, aquilo que quero ser mas não consigo, aquilo que não quis ser mas que sou e fui, aquilo que fiz, o mal que fiz , o bem que fiz , aquilo que faço, eu estou aqui para sempre até que a vida se canse de mim,
Tu és quem tramas, és quem amas, és quem aborreces, és aquilo que a vida te deixar ser e o que não te deixar ser também será ( tu)! E para quem tu não és nada podes fazer simplesmente .|. porque também és aquilo que eles ignoram(………………………………………………………) tu foste!

You

You’re rebel in your unique and personal way You’re crazy when you believe in human race You’re pretty while you smile You’re funny while you talk You’re perfectly simple but, at the same time, you’re a peculiar guy You’re so you, but the truth can hurt too!

Temos Pena

Sempre gostei do teu jeito
Mais até do que devia
Podemos mudar o nosso modo
Podemos conter o nosso medo
Ou viver a braços com o desejo
Mas dificilmente mudarás o teu ser
Foi uma viagem louca, pelo menos para quem a sentiu,
Questiono-me agora sobre o seu significado, a sua utilidade
Pois só restou a certeza de que a vida nos fode a todos, um a um!
Temos pena, mantém a fé, boa jornada!

O sentido da vida e da morte

O sentido da vida…
A morte é um estado tal como a vida, embora este último bem mais dinâmico e o primeiro inerte, apático ou passivo. Se sou biológico, se sou natural, se sou como uma flor ou um animal, existo não com um objectivo específico mas simplesmente existo e pertencendo à vida, tal como à morte pertenço e com ela continuarei a existir embora não na mesma matéria da vida. E já que agora estou vivo(a), vou apenas desfrutar deste estado de existência, tentando e fazendo que ele perdure o mais possível. Nada mais sou senão um ser!

Sobre a utilidade e investimento do meu tempo de vida:

O tempo que passo neste estado de vida é escasso! O tempo que perco com coisas “más”, como a negatividade, o medo, a ansiedade, os vícios, as discussões ou as implicações, não está a ser investido em coisas positivas, como sejam a saúde, o meu bem-estar físico, psicológico ou emocional, estimar quem amo e ser estimado, apreciar coisas “belas”... Não fará sentido pensar demasiado sobre a vida ou sobre o seu significado segundo esta perspectiva, porque a vida somente ocorre para ser vivida e não demasiadamente pensada ou até temida.

Lembrança

Relembra tudo o que fizeste
Cada palavra do que disseste
Um sonho tornado pesadelo
A cada dia sombrio e chuvoso,
no vão das escadas,ao abrires a porta,
E o dia volta a ti
E a realidade ofusca a ilusão
Fica apenas o odor que já se conhece
O cheiro que persiste na roupa já usada
Todos os dias a certa hora
Eu relembro o teu rosto
Eu quase sinto o teu cheiro
E basta, que eu já não sei quem sou...
E nem sei se te conheço...

Perdes-me

Enquanto nada me dizes
Enquanto guardo a saudade
O nosso amor lanças ao mar
Amor perdido e vencido
Pelas águas frias e profundas
Como uma âncora acabada de soltar

Enquanto demoras a dar sentido
À nossa vida adormecida
Pintas de branco um espaço outrora colorido
Rasgas os caminhos por mim percorridos
Perdes-te pelo mapa da vida
Sem pressa em me avistar.

Fala(r)

Falar por falar
Com tudo e nada para dizer
Falar por falar, só para sentir do outro lado a esperança
Fala, falando, o ser falante
Falará o já falado
Fala e refala as vezes que já falou.

Respect

This is respect...
When I don’t want to hurt you
Respect ... even when I don’t tell all of my silly stories
Respect... when you don’t shoot me with your gun
Respect... when I go to sleep and I dream well
Respect baby, just a little for me...

Esperto Ignorante

Nada há a fazer quando a luta não existe
Nada há a questionar quando a resposta é bem óbvia
Quando a saborosa ignorância é tingida pela ganância
Por aí vagueando destemida na mente da gente
Para, no final, apenas sustentar um alegre suspirar
Do sinistro contentamento (des)humano

Feeling

Sente o meu estado de alma
Descobre o meu estado de espírito
Muito há ainda por contar
Muito há ainda por ouvir
Mas não há tempo a perder
Apenas sente

Amor

Lá para os lados do amor
Eu sei que chegarei um dia
Doce lembrança do que ainda não vivi
E somente me é permitido imaginar
Esperarei e afagarei o desejo com gente
Gente que vejo, gente que sinto, gente que pressinto
Mas sei que ao teu amor por fim chegarei

Oposto

Quando outros sorriem, eu choro
Enquanto o mundo gira, eu paro
Quando o sol nasce, adormeço
Enquanto o sol se põe, desperto
Dizes que tudo ficará bem mas eu desespero
Dizes que me amas mas duvido de mim mesma
Avisto a luz mas percebo a profundidade do túnel
Parto mas a tristeza segue-me por todo o lado

Amigo

Vem amigo, abraça a alegria da tua existência
Sente o vibrante pulsar do espírito no teu coração
Serás para sempre recordado mesmo que muito tenhas descurado
No final vislumbrarás a luz que alivia a derrota e a fiança
Afaga a amarga lembrança de anteriores despertares
Eleva somente a imagem da bonança com um novo respirar

He

His eyes between the mountains His hands beneath my pillow His body at the end of the road His voice with my spirit His thoughts in my head His mark in my life My life's his world and his life will be forever in my world

Reflexão

Todas as noites revês detalhadamente aquilo que viveste
Confirmas regularmente aquilo que já fizeste
Pensas indefinidamente sobre um futuro que não te pertence
Vagueias por ideias de menor importância
Reflectes sobre temas da vida complexa
Cais no sono, confuso com a tua simples existência
Apenas um caminho, apenas um destino

Agarra

Baixa a guarda, precisas de aprender a controlar a tua ansiedade
Nada mais importa, nada mais interessa
Larga os teus falsos vícios e manias
Sente a vida a passar, a fugir-te entre os dedos
Agarra-a, não a deixes seguir indiferentemente
Não a deixes mudar simplesmente de passeio

Sono

Quando eu fechar os meus olhos
Não vigies o meu sono
Aproveita, respira o ar doce duma noite de verão
Sente o cheiro duma flor adormecida
Eu ficarei para sempre bem
Porque eu somente sinto a falta da tua presença quando acordo
Já que durmo profundamente
Aproveito para sonhar no que nunca aconteceu
O sono mata-me as dores da vida
À cabeceira não é de todo o teu lugar
Ouve a música e dança
Celebra o palpitar da vida

Foge

Foge não deixes o seu abraço lânguido apanhar-te
Foge e deixa para trás todo o peso duma vida
Foge e cai descansado no colo da tua ira
Para trás fica o caminho contado, medido e definido
Para a frente só há a saudade da doce heresia

Só porque

Só porque me possuis
Só porque te amo
Só porque te respeito
Só porque te desejo
Só porque te anseio
Só porque te quero a ti
Poderá ainda haver o dia em que o orgulho me cegue
Há quem tenha sido um engano
Há quem tenha sido a desilusão
Há quem tenha sido um velho companheiro
Há quem seja ainda uma dúvida
E há quem consiga mostrar-me a solidão...

Amor

Amor é para ser sentido, para ser vivido
Não pensado, não medido, não executado, não finalizado
Se queres intelectualizar o coração
Acabas sempre com a faca na mão
Se queres medir os sentimentos
Acabas certamente sem a razão
Por isso ama desmedido, ama destemido, ama com emoção
Por isso vive o teu amor, sem pudor, sem temor, sem privação.

Silêncio

Deixa o silêncio entrar e transparecer-me a alma
Deixa o mar esbater-se contra a barra
Eu aguento o murro seco da vida
Sei que sobrevivo à solidão
Pois em mim guardo os fantasmas da vida
Ao longo deste caminho acidentado

Dominação

Não lhe domarás o génio
Podes até domar o corpo
Domar-lhe a vida ou as preferências
No verdadeiro sentido material da existência
Mas sua essência jamais dominarás
Pois somente a conhecerás em breves instantes de inconsciência

Passagem

És apanhado pela rebentação
E vês-te cercado pela espuma
Não tens como escapar
Apenas sente o frio gélido do mar
Vislumbra a terra duma outra perspectiva

Fazes agora parte do mundo dos desencalhados
Embarca sem arrependimentos
Embarca sem ressentimentos
Deixa-te levar, deixa-te apenas… levar
Não esperes por mim

Não pertenço a este mundo
Não pertenço sequer ao nosso amor
Eu sou livre, sempre serei
Por mais que a tua mão me tente segurar
Eu nunca serei de ninguém
Pois eu apenas existi nesta passagem!

A mulher que ama o estranho…

Já vi tudo o que podia e não queria
Do amigo, do conhecido, do amante, do vizinho
Agora quero apenas amar o estranho e o desconhecido
Vi tudo o que não queria, de onde menos esperava
Vi tudo o que me agradou, de onde não imaginava
Hoje quero amar o estranho
Amanhã viver um sonho passageiro
Quinta ver-te dançar
Sexta caminhar sozinha
Sábado olhar o mar…
Domingo somente bocejar…
Na semana seguinte tudo recomeçar

Caminho

O caminho não existe
É um infinito suceder de coincidências
O caminho a ninguém pertence
Pois todos seguem o caminho
Se eu tentar seguir o caminho
Traz-me de volta à tua presença

Dúvida

No início da noite sou irresistível
No calor da noite serei eficiente
No desenrolar da noite fumo mais um cigarro
No final da noite já estou perdida
Volto à dúvida da minha existência

Amanhã

Tudo o que fica por dizer
Tudo o que fica na mesa da cabeceira
Estará disponível amanhã
Mas amanhã já cá não estarei
Seguirei com a minha presença
Em jeito esguio caminharei
Pela calçada que agora desconheço
Sinto a chuva a cair apesar do céu estrelado
Um calor que se abate pela rua
Provoca-me um frio passageiro
Do nada tudo fazes
O tudo transformas em nada
Nada há dizer, nada já há a sentir
Nada a perguntar já que a certeza é agora soberana

Partida

Palavra de completo contra censo
Significado perdido no silêncio da noite
Aberta na encosta da descoberta
Vazio da madrugada sozinha
Querendo simplificar aquilo que é complexo
Querendo complicar aquilo que é evidente
Palavras lançadas ao vento
Que não reflectem o que por aqui se sente
Carta fora do baralho em cada noite perdida
Nevoeiro de sentidos profundos mas fúteis ao mesmo tempo
Lançando as chamas na direcção contrária
Arde tudo o que se constrói no leito do inconsciente
Deixa as cinzas e segue caminho,
Olha para trás mas não voltes para dentro…

Amor Perfeito

Um dia hás-de para mim voltar
Mesmo que seja pela primeira vez
Porque no fundo de mim jaze
A certeza de que o nosso amor é perfeito.
Teu corpo esguio saberá
Alimentar a fome da minha fraqueza
Tua pele doirada saberá
Colorir o meu corpo já branco
Tua voz roca afagará
Meu ouvido pequeno e atento
Teu cheiro provocará
Nova essência no meu peito

Verdade

Para te a falar verdade
Mataria o amor
Acabaria com o desejo da insegurança

Para saberes a verdade
Só tens de seguir a dança do meu corpo
Escutar a voz do meu coração

Da minha boca não sai verdade
Pois são meus olhos que emanam a certeza
De que tua sempre serei!

Suspiro

Suspiro…
Quando não te avisto
Quando não te toco
Quando não te cheiro
Suspiro…
Após o teu beijo
Após o teu abraço
Após a tua voz
Suspiro…
No sol da tarde
No calor da noite
No frio da manhã
Deliro…
Nos teus braços
Sob o teu corpo

Entre as tuas mãos

Toque

Tudo o que vejo e sinto...
É somente o bater da vida
O ínfimo toque da descoberta
O teu olhar por vezes mente
Porém teu corpo não engana
Quero em mim sentir o calor da tua presença
Quero em mim guardar o cheiro da tua essência

Gente

Gente que se cruza
Gente que não se cala
Palavra para quem é surdo
Gesto para quem é cego

Abraço o desconhecido
Beijo o aborrecido
Cumprimento o cínico
Sorrio a mim mesmo ao espelho

Nesta festa discreta
Neste circo estabelecido
Monto a minha guarida
Levo uma vida cortejante

Se me vires não olhes
Se me olhares não vejas
Se me tocares não teimes
Se me tiveres não desprezes

Desejo

Hoje não acordarei, nem despertarei o desejo
Vou tentar tudo esquecer
Atirarei ao vento tudo o que me disseste
No meio das tuas frágeis palavras
Vejo agora uma atitude bem diferente

Não vês o meu pavor
Não sabes os meus desejos
Não provaste o meu sabor
Nada sabes de afectos…

Já não quero de ti saber
Se voltares com teus cortejos
Hoje quero dormir só
Morrer nua de desejo

Deserto

Deserto de amor
No meio de estridente ruído
Vozes carentes e lentas
Esfumaçam p'lo ar perdidas

A voz de quem não sabe falar
A fala de quem não sabe o que diz
O silêncio que vem do mar
A maresia no corpo fransido

O cheiro do vinho enjoa
Quem respira um ar poluído
A dança do baile corrido
E suores na face caindo

Paixão

Paixão é angústia de não te consumir
É a lágrima lambida e sentida
Um dia terá um fim mais trágico que a vida

No dia em que a paixão me domar
Um novo universo sereno surgindo
Mais um passo fundo no árido vazio

Rimas, danças e canções
Na poesia da minha rotina
Um dia o sol rasgará a fachada escondida

Indiferença

Essa tua indiferença
Perante minha face ligeira
Será a verdade?

Essa tua delinquência
Ao matares o amor
Com palavras sem valor

Vais fintando o destino
Mas terminas o teu dia
Agarrado à falsidade

Se queres saber mais que o coração
Se consegues rir do luto da saudade
Não mereces o amor, não mereces ser amado

Dádiva

Matas o amor do teu mais fiel seguidor
Desejas o sabor de ser um mal amado
Ironia da vida, há quem chame destino
A este imenso e continuo dissabor

Se me dou, não te dás
Se te quero, não me queres
Quando me quiseres…
Quando te quiser…

A vida dá, tira e leva
É a velha soberana
Mãe dos seus seguidores

Ao Mar

Dás-te sem medo, sem limite
P’la noite dentro e p’lo jardim
Na alvorada sorris e cantas

Mas regressas ao teu pranto
Vislumbrando o céu cinzento
Rasgos de sol pelas brechas do teu corpo

As abertas do amor
Que só mais parecem dor
Destroços lançados ao mar

Na areia dunas de amargura
Pela água flutua a saudade
Pela praia avanças mudo, calado

À Ré

Tu és areia e eu sou mar
Juntos sabemos como ensinar
Juntos sabemos como ensinar
O marinheiro a navegar

Eu sou cometa, tu és luar
Juntos sabemos como ensinar
Juntos sabemos como ensinar
O sol a pôr-se juntinho ao mar

Na nau princesa dum rei maior
Sigo de longe o teu farol
Sigo de longe o teu farol
Pois se me perco, fico sem amor

Já sopra o vento contra a maré
Vagas medonhas, levanto à ré
Âncora presa e em ti encalho
Anjo risonho por ti ganho asas

Beija-flor

Na boca guardo o sabor
Do cheiro que o vento leva

A paisagem já com cor
De verde e fresca giesta

No parapeito vaso e flor
Beldade da nossa ruela
E o beijo dum beija-flor
Quero cá dentro com ela

Força

Dizes que a força da tristeza
É a maior que Deus detém
Sorris com tal avareza
Na razão de que és refém

Mas provo-te o contrário
Se a ti puder chegar
Com a voz do meu regaço
E um leito para deitar

Amor

Quem ama não recebe amor
Só leva dissabor p'ra onde quer que vá
Quem dá torna-se um trovador
E só conhece a dor da fiança

Adiante prossigo o caminho
Não há luz que brilhe, a luz da esperança
No final vejo a cara do amor

É a face de quem ainda não me ama

Em mim

Tua voz é um espelho
Tua figura um anseio
És o desejo duma vida

Deixo assim nascer a flor
Que plantaste com primor
No regaço dum artista

De dia busco palavras
À noite ouço baladas
Outrora mais animadas

Parto para outro lugar
Desafio o céu e o mar
Mas tu em mim existes

Dafundo

Pela janela avisto o rio As travessuras num navio E a noite com o seu luar Passo assim p'lo Dafundo Com este passo bem curto E o meu nome ouço chamar Sobre carris pensamentos Uma história sem presente Ou futuro para contar Ao Cais chego já escuro Mas ainda com esperança Do amor reencontrar

Fugir

À noite choro cansado
De dia desanimado
Com a dura realidade
Do fado que há em mim

O fado é a verdade
Mas também é a saudade
Daquilo que tem um fim

Podes fugir, ir embora
Mas sei que virás de fora
Quando eu não estiver p’ra ti

Nesse dia chorarás
e por mim suplicarás
Quando a ribeira tiver fim
E a ribeira terá fim

Longa Noite

A noite cai sobre mim
Como chuva de água quente
Que aquece o mar bravio

Pelo bairro, pela rua
A saudade fica tua
Pois estou longe de ti

Fumo mais este cigarro
E brindo à bela cidade
Com um copo de anis

No final, ao ver nascer
Mais um dia desta vida
A saudade torna a mim

Rio e Mar

Fui levado por um rio
Fui levado por um frio
Até ao fundo do mar

Na corrente um navio
Fui chamado pela brisa
Para um novo despertar

A sereia cantarolou
Os pássaros bandidos
Desviaram-me o olhar

No final desta viagem
Fica a mágoa da paragem
E teu rosto para lembrar

Desilusão

Esperei pelo teu perdão
Após a desilusão
Com promessas dum olhar

Hoje enfim dou-te razão
Já que o meu coração
Não pode em ti confiar

O passado tem um nome
O futuro um vislumbre
Do que aqui há-de passar

Mas espero que não tornes

Novamente com teus olhos
Um coração desfeito por amar

Um fim

Este fado é a certeza
Duma súbita tristeza
Que padece sobre mim

Mas essa tua leveza
Tua gentil subtileza
Ilumina um mar sem fim

Serei teu quando disseres
Que me queres, até ao fim…
Serei teu se me quiseres
Mas só se deres ao fado um fim…